AGN Entrevista Alexandre Linck sobre a utilização de quadrinhos na educação brasileira
O professor e influenciador aborda como os quadrinhos podem melhorar o ensino e como a educação brasileira não ensina os professores a usarem o material de maneira eficiente.
Quadrinhos são uma das expressões de arte mais conhecidas e consumidas no mundo. Qualquer pessoa que esteve em contato com eles guarda algum quadro marcante na memória. No Brasil, histórias em quadrinhos fazem parte da vida de milhares de crianças, jovens e adultos que cresceram lendo Turma da Mônica, Menino Maluquinho, Tintim, Superman, Batman, Homem Aranha e entre outros.
O campo da educação não fica de fora disso. Quadrinhos são um dos recursos utilizados para ilustrar problemas em questões do Enem, seja no primeiro ou no segundo dia de prova. Nas salas de aula, HQs são encontradas em diversos locais, seja no livro paradidático, na referência do professor para explicar um assunto ou na questão da prova com a tirinha da Mafalda com a pergunta “qual o humor da tirinha?”.
(Questão 107 do caderno amarelo do Enem 2022).
Para entender como os quadrinhos podem contribuir para a educação brasileira, a AGN entrevistou Alexandre Linck, professor, doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisador da organização internacional RING (Red de Investigadores de Narrativas Gráficas) e, desde 2011, criador do site/canal Quadrinhos na Sarjeta, que conta com mais de meio milhão de inscritos no YouTube. Também coletou relatos de estudantes que carregam uma relação com quadrinhos desde a infância e contatou os quadrinistas Daniel Cesart e Dyo para entender o mercado baiano de quadrinhos.
“Migrei para a teoria dos quadrinhos porque as pessoas acordavam nas minhas palestras e aulas quando eu falava sobre isso”, explica Linck. Ele conta que sua defesa de tese (A Invenção dos Quadrinhos: Teoria e Crítica da Sarjeta) foi uma das poucas que encheu de telespectadores, mas não porque ele era famoso, mas sim por abordar as histórias em quadrinhos (HQs) como tema. “Tem muita gente falando sobre a teoria do cinema no meio acadêmico. Sobre quadrinhos, porém, é bem raro. Quando eu começava a falar sobre, eu notava que o pessoal pensava: ‘tô escutando algo diferente’”.
Para Linck, existe um grande interesse reprimido pela falta de oferta para discutir sobre quadrinhos. Sua matéria optativa sobre HQs sempre “dava bastante aluno”, suas palestras enchiam de professores e seu canal hoje conta com vídeos com mais de meio milhão de visualizações. “Eu nunca imaginei que vídeos sobre quadrinhos dariam 100 ou 200 mil visualizações. Isso também é um sintoma. Quadrinhos, no Brasil, vendem normalmente entre 3 a 5 mil exemplares. Então, se um vídeo tem 200 mil visualizações, é porque o interesse ultrapassa o próprio hábito do consumo”.
Esses cenários, segundo o professor, provam que há espaço considerável para trabalhar quadrinhos no meio acadêmico, seja nas escolas ou nas universidades. No entanto, o Estado e a iniciativa privada pouco fazem para ocupar esse espaço, deixando os docentes sem apoio sobre como e quando utilizarem as HQs com eficiência. “Os professores ainda fazem isso porque percebem intuitivamente que funciona, mas não tem preparo nenhum”, explica Linck.
No Brasil, o uso de quadrinhos e outras formas de literatura são reconhecidos e regulados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996, e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de 2017. A BNCC reconhece as HQs como forma de ensino, enquadrando-as no campo artístico literário e prevendo seu uso do 1° até o 9° ano do fundamental. O material, segundo o documento, deve ser utilizado para o desenvolvimento das habilidades de interpretação e formação da linguagem dos alunos. Porém, não há uma instrução detalhada de como fazer isso.
“Ela pode contribuir na medida em que entendo que tudo aquilo que sensibiliza o aluno contribui. Então nesse assunto entra todas as formas de arte, por isso defendo que crianças tenham aula de música, desenho, cinema. No caso dos quadrinhos, é a mesma coisa”, explica Linck.
Como os docentes não são ensinados a como usar as obras, acabam interpretando o uso dos quadrinhos de maneira ineficiente. Algumas visões, explica o professor, enxergam as HQs como um facilitador de literatura. Esse tipo de abordagem ocasiona uma negligência em ambas as obras, pois os quadrinhos são uma forma de mídia com suas próprias particularidades, e não uma porta de entrada para outros livros.
Sem a preparação, o professor acaba perdendo oportunidades para utilizar a quadrinização como um recurso de aula e uma atividade para fixar o ensino. “Muitas vezes, uma atividade interessante pode ser produzir uma quadrinização do que você aprendeu na aula de história. Os alunos podem se apropriar daquelas narrativas históricas e construir a sua própria visão. Isso pode ser feito a partir dos quadrinhos”, explica Linck. Os usos são extremamente variados e podem abarcar diversas áreas, como as ciências exatas.
“O que acontece é que esses professores vão para as escolas e trabalham com isso. Depois, tem quadrinhos no Enem, em tudo que é lugar, mas não teve um professor na formação para lecionar, para ajudar a trabalhar com quadrinhos em sala de aula”, completa.
Para Linck, a relação mais próxima entre escolas e quadrinhos pode ajudar no ensino particular de cada aluno. Ele explica que com o aumento do debate e da adaptação para neudivergentes, a cultura pop pode ser um caminho que as instituições de ensino podem adotar. “Já tive diferentes alunos autistas. O fato de acompanhar a cultura pop fazia, muitas vezes, eu ser o único professor que conseguia estabelecer um diálogo com eles”, conta.
Ao ser perguntado sobre se as HQs podem ser uma resposta ao crescimento do consumo de TikTok e outras mídias sociais de vídeos curtos, Linck comenta que esse discurso já foi utilizado quando a televisão surgiu. “Só atualiza esse processo, o quadrinho como resposta ao TikTok. Eu acho que eles são mais do que simplesmente isso, mas sim, eles podem aprimorar a atenção e a interpretação. Acho que isso não é um problema da mídia em si. Daria também para fazer uma análise e interpretação de vídeo de TikTok. O problema não é o objeto, é a abordagem. Eu acho que dá para fazer uma análise profunda dessa mídia e fazer uma leitura rasa de um quadrinho”.
(Minha relação com quadrinhos começou por conta da minha mãe. Ela é professora e fazia questão que eu lesse desde cedo, só que eu não queria ler nem amarrada. Aí minha mãe começou a trazer uns quadrinhos da turma da Mônica. Eu me apaixonei de verdade quando eu li Umbra, da Turma da Mônica Jovem, lá na escola. Depois disso, nunca parei. Hoje em dia minha relação com quadrinhos não mudou muito apesar de eu também gostar de ler livros agora. Eu leio mais histórias de super heróis. Teve uma época que eu tinha muita vergonha de falar sobre as histórias que gostava, principalmente porque zombavam bastante de mim por ser uma garota que gostava disso. Porém, com o tempo fui entendendo que não existe nada de vergonhoso nisso. Eu diria que hoje em dia leio menos por conta dos compromissos do estágio e da faculdade, mas ainda amo histórias em quadrinhos e principalmente a comunidade que eles formam. Qualquer comunidade de fãs do Batman que você ver, eu provavelmente vou estar lá - Ana Clara Madrins, estudante de Produção Cultural na UFBA). Ilustração por Lemos (@llemo6s).
Mas afinal, o que é uma HQ? “É tudo aquilo que a gente entende por quadrinhos. É muito mais pelos usos e entendimentos que circulam na sociedade e que mudam de acordo com o tempo, do que necessariamente um conjunto de características”, explica Linck. Segundo ele, algumas obras podem fugir dos requisitos para serem consideradas quadrinhos, mas o público ainda sim pode tratá-las como um.
Limitar características para os quadrinhos tende a empobrecer a discussão e excluir as exceções. Mesmo assim, Linck conta que é possível encontrar características semelhantes entre as obras que são consideradas quadrinhos, como a relação entre sequencialidade e simultaneidade. “O fato de que enquanto você está lendo um quadro e também estar enxergando os outros faz parte do envolvimento com essa forma de arte. Você antecipa o que vai ler”.
Outros pontos também são importantes para a definição do que é quadrinho, como a utilização de imagens e textos. Porém, há exceções que podem quebrar esse dualismo, mas, ainda assim, são consideradas HQs. Por isso, o professor alerta que não se deve ter apego a essas definições.
A dificuldade em definir exatamente o que são quadrinhos também se deve a questões geográficas. Eles têm estilos, desenhos e formas diferentes a depender do país em que a pesquisa está inserida. Até mesmo os nomes mudam. No Japão, HQs recebem o nome de mangá; nos Estados Unidos, comics; em Portugal, banda desenhada; na Coreia, manhwa; na Itália, fumetti. No Brasil, eles foram apelidados de gibis, por conta do sucesso da revista de quadrinhos lançada pelo grupo Globo nos anos 40. “As tradições do quadrinho estão muito ligadas a certas geografias, vivências culturais e estilos que surgiram, às vezes, até mesmo restritos a um certo autor”, explica Linck.
(Meu primeiro contato com quadrinhos foi com “Turma da Mônica” e “Turma da Mônica: Jovem”. Eu gostava bastante, mas aquilo ainda não era exatamente o que mais despertava meu interesse. Ainda assim, essas leituras me ajudaram muito no processo de alfabetização, além de contribuírem para o desenvolvimento da minha leitura e do meu vocabulário. As minhas primeiras HQs de super-heróis foram do “Lanterna Verde” e do “Homem-Aranha”, um desejo de criança sendo realizado, o brilho no olhar surgia ao finalmente conseguir tocar em um livro de heróis. Muitos ensinamentos foram adquiridos através das histórias e dos vídeos que eu assistia. Cada herói me ensinava um pouco sobre como viver a juventude e me preparava, de certa forma, para a fase adulta, transmitindo valores como responsabilidade, esperança, coragem, dedicação, dignidade, força e, acima de tudo, respeito - Iago Matos, estudante de Ciências Sociais na UNEB). Ilustração por Lemos (@llemo6s).
- Quadrinhos na Bahia
Na Bahia, o mercado de quadrinhos ainda está em crescimento e foi um dos mais procurados durante a Bienal do Livro 2026, realizada no mês de abril em Salvador. Um dos expositores no evento foi o quadrinista, desenhista e escritor baiano Daniel Cesart, autor de obras como A última revolta Malê, A Semente e Estados Unidos da África. Para ele, o cenário tem se tornado cada vez mais otimista, principalmente devido à capacidade de alcance que os quadrinhos têm enquanto mídia. A narrativa nas HQs são visuais, gráficas e trazem com mais facilidade histórias que seriam dispendiosas em mídias com o cinema e a TV.
“Acho que o quadrinho é uma obra que consegue trabalhar bem com a nossa imaginação. O que é que aquele personagem está sentindo, vendo, e contar essas histórias”, analisa.
A facilidade de compreensão dos quadrinhos proporciona uma gama de possibilidades na área do ensino. Entretanto, a rigidez da sociedade com relação a esse tipo de mídia impede que sejam explorados em outras vertentes. Cesart conta que já tentou realizar oficinas para professores, mas sentiu resistência devido ao fato de que foram condicionados a enxergar quadrinhos apenas como um instrumento de aprendizado para menores. Isso reflete uma lacuna na formação dos docentes para que possam usá-los de forma didática com os alunos.
“Cada um tem sua dificuldade, mas eles já estão dentro de um sistema que cobra o tempo todo”, argumenta Cesart, refletindo sobre os possíveis obstáculos. “Então, agora vou ter que aprender mais uma coisa para fazer meu trabalho. Às vezes, sinto que é isso, mas a situação está melhorando”.
(Meu primeiro contato com histórias em quadrinhos foi quando era pequena, porque meu irmão adorava HQs, especialmente da Marvel, mas também lia muito Turma da Mônica Jovem. Foi assim que entrei nesse universo. Me apaixonei pela simplicidade, pela forma acessível de contar histórias e, em especial, pela Turma da Mônica Jovem, que explora diversos temas e estilos. Ela traz romance, drama, terror, e, ao crescer, vi que, junto com os personagens, passei a viver cada fase. Além disso, como comecei com as HQs, isso me influenciou a entrar no mundo da leitura. Acho que a maior importância das HQs é essa acessibilidade, a facilidade de entendimento das histórias permite que qualquer tipo de pessoa, independente de idade ou experiência, compreenda e se identifique com as narrativas - Carol Fraga, estudante de química no SENAI). Ilustração por Lemos (@llemo6s).
Apesar da baixa inserção de quadrinhos no ambiente de ensino, a nova geração de crianças e adolescentes continua consumindo HQs, como a webcomic Sense Life, que tem traços de mangás e soma mais de 60.000 cópias, números que um quadrinista dificilmente conseguiria alcançar. Nesse cenário, Daniel enxergou uma oportunidade e desde então tem desenvolvido um projeto de pesquisa com amigos para explorar esse novo nicho de leitores em bienais e festas literárias. “É importante produzir coisas que sejam consumidas por esse público e que tragam conteúdo, é o grande desafio do momento” justificou.
A possibilidade de explorar diversos grupos motivou a feirense Dyo, que cresceu na mercearia de seus pais lendo histórias da Turma da Mônica Jovem e Percy Jackson, obras que misturam realidade e fantasia. Desde pequena, sentia necessidade de contar histórias e, por ser bastante visual, as desenhava. Esse processo, no entanto, a travou pois passou bastante tempo acreditando que seu traço precisava ser perfeito para que pudesse ser visto. “Isso é muito ruim, pois senão você nunca vai desenhar um quadrinho, nunca vai estar bom o suficiente”, explica.
O medo passou apenas quando começou a publicar seus quadrinhos no X (antigo Twitter) graças ao incentivo de amigos. Quando as histórias passaram a alcançar um público maior e diverso, sentiu que poderia trabalhar fazendo algo que gosta. Foi assim que realizou a publicação de seu primeiro quadrinho, Fúria. A história acompanha um homem determinado a eliminar os Cavaleiros do Apocalipse para dar fim à morte. Apesar da premissa aparentemente violenta, a história é pacífica e se concentra em longos diálogos, o que causou estranhamento nos leitores.
“Como eu tô num ramo um pouco mais independente, acabo tendo muita facilidade para fazer as coisas do jeito que penso, sem ter nenhuma amarra mercadológica”, argumentou.
(Eu tinha dificuldade na leitura. Então minha mãe utilizava quadrinhos para me ajudar a ler e pronunciar as coisas direito. Eu tinha um costume de trocar a letra V pelo B. Então, eu fiquei de falar você, falava bocê tá bem. Minha mãe fazia gracinha comigo porque eu era um Cebolinha 2. Dentro da Turma da Mônica eu conseguia ter uma uma noção de realidade um pouquinho diferente, principalmente com a figura do Cebolinha em si de pronúncia das coisas. Diria que o meu favorito é um grupo que ia receber adaptação para cinema pelo James Gunn, que seria The Authority. O grupo tem dois super-heróis gays, que é o Apolo e o Meia Noite (Midnighter), que são uma versão gay do Superman e do Batman. Foi um dos primeiros quadrinhos em que eu vi pessoas que se parecem comigo. Ele construiu um pouquinho da imagem do que seria um super-herói gay. Existem coisas diferentes também que saem desse padrão de heteronormatividade e acho que o contato com quadrinhos me deu um laço maior com outras realidades - Christian Lavigne, estudante de Produção Cultural na UFBA). Ilustração por Lemos (@llemo6s).
No entanto, apesar da liberdade de publicação, Dyo explica que só se sentiu inserida no mercado baiano quando, acidentalmente, começou a publicar pensando em um retorno financeiro. Com a criação do seu Catarse, plataforma de financiamento coletivo, seu nome se tornou mais conhecido e mais respeitado enquanto profissional, assim, fez a publicação de Vade Retro.
Diferente da primeira história, essa era ambientada na sua cidade natal e trazia uma visão sombria e rockeira em pleno interior nordestino. A ideia surgiu da necessidade de traduzir sentimentos pessoais de maneira saudável. Ela argumenta que queria mostrar as diversidades que são possíveis ao escrever fantasia e como as pessoas se identificavam com as características dos personagens e associavam à amigos próximos ou situações vividas.
“Nessa história, era eu falando sobre o quanto queria sair de Feira de Santana, porque aquela cidade me sufocava. Ao mesmo tempo, quanto amo essa cidade. A maioria das minhas histórias vêm desses sentimentos e depois extrapolo elas”, completa.
Deixe seu comentário