Noticia da home

Desafios do Pensamento Lésbico

12/05/2026 Feito por Pesquisador 0 visualizações

Evento promovido por grupo de pesquisa GIRA da UFBA discutiu os desafios atuais do movimento lésbico, como sua invisibilidade na produção acadêmica e dentro de outros movimentos sociais

Desafios do Pensamento Lésbico

Pesquisador — 28/11/2017

Visibilizar a produção acadêmica de pensadoras lésbicas e do grupo lésbico dentro do movimento LGBT e feminista foi o objetivo da realização da Jornada do Pensamento Lésbico Contemporâneo, nos dias 24 e 25 de novembro, na  Universidade Federal da Bahia (UFBA). O evento foi promovido pelo Grupo de Estudos Feministas em Política e Educação (GIRA), que tem como diretriz a discussão de gênero e sexualidade dentro de perspectivas educacionais e políticas.

Imagem Divulgação

Leiam lésbicas! – O pensamento Lésbico é movido por dois conceitos principais: a invisibilidade lésbica e a heterossexualidade compulsória, segundo afirmou um dos coordenadores do evento e do GIRA, Felipe Fernandes. Para ele, esses conceitos são essenciais para o entendimento das reivindicações desse grupo. “Esse ‘cânone’ lésbico pensa a heterossexualidade enquanto uma instituição política que existe com o único objetivo de tirar o poder das mulheres. E para se sustentar, essa instituição tem que tornar invisível aquele grupo que enfrenta mais fortemente. Então nós temos a invisibilidade lésbica”, explicou.

Fernandes também relata que ao dialogarem com grupos de movimentos sociais ativistas e militantes, que colaboram com as atividades realizadas pelo grupo de pesquisa, notou-se um grande desconhecimento com relação às obras de autoras lésbicas até entre integrantes do próprio movimento lésbico. Desta forma, o grupo de pesquisa decidiu direcionar suas atividades para os estudos dessas escritoras que ainda estão desconhecidas dentro da própria universidade.

A partir deste direcionamento, buscar incentivar a divulgação de obras de pensadoras lésbicas para romper com a invisibilidade dessas autoras dentro do ambiente acadêmico tornou-se indispensável. “Com essa jornada, a gente procurou suprir um pouco essa demanda literária do movimento lésbico, ou seja, trazer para as novas gerações o que lésbicas escreveram sobre lesbianidade”, destacou Fernandes.

Visibilidade para o movimento lésbico - Durante a realização do evento, discutiu-se a necessidade de conquistar maior visibilidade para a comunidade lésbica, especialmente dentro dos movimentos feministas e LGBT, já que apesar da convergência de algumas pautas, mesmo no movimento Lésbico ainda possui demandas específicas.

Corroborando com a ideia da jornada, a professora da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Bruna Irineu, convidada para participar do projeto do GIRA, ressalta a importância de evidenciar a coalizão do grupo lésbico, não atrelando suas lutas somente aos outros movimentos sociais.  “Nem toda lésbica se considera feminista. Nem toda lésbica ‘saiu do armário’. E nem toda lésbica precisa ser feminista ou ‘sair do armário’. O fato é que do ponto de vista epistemológico, há um coletivo de sujeitas muito grande que vem construindo um debate sobre lesbianidade política”, afirmou a professora.

Entre as questões levantadas, houve consenso em afirmar que a atual situação política brasileira oferece riscos às conquistas sociais conseguidas nos últimos anos. “A gente construiu uma agenda dentro das universidades com esse tema. Mas hoje vivemos um momento de ameaça a essas conquistas”, alertou Bruna Irineu.

A coalizão entre diferentes vertentes do movimento social é imprescindível, segundo as pensadoras/ Imagem: Giovanna Hemerly

Diante da atual situação de ameaça, foi proposto reforçar a união entre mulheres que pretendem lutar na defesa dos seus direitos, pois apesar das divergências entre vertentes, tanto dentro do movimento feminista quanto dentro do movimento lésbico, é importante trabalhar coletivamente, a fim de se fazer uma coalizão política mais fortalecida que impeça o avanço do radicalismo conservador.

Para a professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pesquisadora da área de sexualidades e gênero, Suely Messeder, não há mais chances para discordância ou brigas dentro dos movimentos de lutas sociais, pois isso apenas enfraquece o poder desses grupos diante da atual situação. “Nos tempos de democracia que a gente viveu, não como valor cultural, mas como valor exercido pelo Estado, a gente podia ‘escorregar’ nas experiências como ativistas políticas. Mas agora, em época de fascismo, a gente vai ter que se reconstruir”, destacou Messeder.

A professora do curso de Serviço Social da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Simone Brandão, também ressaltou a situação de perigo dos movimentos sociais e a necessidade de coalizão política, pois, segunda ela, o atual momento pede um enfrentamento coletivo. Ela também destacou a importância de “mostrar a força da lesbinianidade entendida como posicionamento político, mais do que como uma identidade essencializada”.

Ampliação do debate – Apesar do crescimento no número de grupos de pesquisas e de produção acadêmica sobre questões de gênero e sexualidade, ainda há uma busca desses grupos por um debate mais transversal a todas as áreas de ensino, especialmente em licenciatura. Ainda discute-se a necessidade de que estudos sobre gênero e sexualidade não fiquem apenas no campo das disciplinas optativas das poucas áreas que oferecem esses estudos.

Para a professora da UTC, Bruna Irineu, esses estudos deveriam integrar a grade de disciplinas obrigatórias, já que são elementos essenciais na formação de um cidadão. “Ainda que a produção acadêmica sobre o tema tenha aumentado, ela ainda é muito localizada em determinadas áreas do saber. Essa é uma das preocupações que nós que estudamos gênero e sexualidade temos”, afirmou.

*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e repórter da Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura

Deixe seu comentário