E na hora do ENEM? Cadê o ChatGPT?
O uso excessivo da Inteligência Artificial no ensino médio preocupa especialistas, pois pode prejudicar o aprendizado e a autonomia dos estudantes. Apesar de auxiliar nos estudos, muitos alunos utilizam a ferramenta sem orientação adequada. Por isso, escolas e professores buscam formas de regulamentar e orientar o uso consciente da IA na educação.
O ensino médio é o período conclusivo de anos de estudo na vida dos estudantes brasileiros, etapa na qual os alunos se preparam para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) que acontece nos meses finais do ano letivo, prova essa que requer um conhecimento técnico dos estudantes que a realizam, possibilitando o acesso ao Ensino Superior.
O que tem preocupado professores e especialistas em educação é o uso indiscriminado da Inteligência Artificial e seus efeitos, não apenas sobre o aprendizado em sala de aula, mas também sobre o futuro dos estudantes. A dependência excessiva da tecnologia pode comprometer o desempenho no ENEM e em outros vestibulares, reduzindo as chances de ingresso no ensino superior.
A ausência de orientação adequada leva a IA de aliada à obstáculo. Sem saber filtrar informações, avaliar fontes ou desenvolver raciocínio próprio, o estudante passa a delegar à máquina etapas do aprendizado e é justamente essa autonomia intelectual que o ENEM e os vestibulares exigem. Redações, interpretações de texto e questões de ciências humanas demandam uma argumentação construída pelo próprio aluno ao longo dos três anos do ensino médio.
Uma pesquisa feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) em setembro de 2025, apontou que de cada dez estudantes de Ensino Médio, sete fazem uso de alguma Inteligência Artificial Generativa. O dado fornecido mais alarmante é que desses alunos apenas 32% afirmam ter recebido orientação nas escolas sobre como utilizar essa ferramenta, isso significa que dos 7.476 alunos entrevistados, um pouco mais de 2.390 alunos não possuem instrução para realizar uma boa pesquisa.
Existem dois lados dessa moeda: o primeiro, onde o uso se torna benéfico aos discentes, pois facilita o acesso rápido a determinado assunto, auxiliando na fixação de alguma informação ou matéria desejada e o segundo lado, no qual é delegado todo seu estudo a inteligência artificial. O problema desse uso está na forma de pesquisa, pois ela utiliza um mecanismo de treinamento no qual toda a informação que é dada, foi inserida nela por outros usuários anteriormente.
Partindo do ponto que a IA é alimentada com diversas fontes e partes delas não confiáveis - teses, artigos e até mesmo alucinações da Inteligência Artificial - uma pergunta genérica levará a uma resposta muita das vezes não satisfatória, cabendo ao usuário filtrar as informações dadas, selecionando as verdadeiras.
O perigo está na falta de verificação das respostas fornecidas pela plataforma, e graças às facilidades de obtenção das respostas, os alunos se apegam a ela, copiando tudo da forma que está lá, sem se darem o trabalho de ler o texto ou assunto, como afirma Sandra Teresa, professora de Biologia “Você tem que saber como formular a pergunta, muitas vezes a pesquisa com a inteligência artificial é falha, porque alguém à alimentou e com isso ela responde o que você quer perguntar, ela só não sabe se você fez a pergunta de forma correta. Então acho que esse é o grande problema”.
A falta de formação sobre a Inteligência Artificial ou o uso da ferramenta, atinge os estudantes independentemente da rede de ensino. Realidade essa que se torna evidente em poucos segundos de conversa sobre o assunto. Gabriel, estudante do 3° ano do Colégio Estadual em Tempo Integral Barros Barreto, que confessa o uso do algoritmo inteligente “Eu uso para pescar em uma prova difícil, tá ligado?”
Já João Lucas, estudante do 2º ano do Colégio Sacramentinas, rede particular de ensino, acredita que o Chat GPT, por exemplo, não faz nada diferente do que um ser humano possa fazer. Segundo João, a máquina está disponível para agregar ao conhecimento, mas não para fazer o seu trabalho. “ A classe artificial está para completar os métodos de estudo atuais, peço para completar as informações que já possuo, confiro a resposta e vejo o que será útil. Nada muito diferente do que um ser humano pode fazer” afirma o adolescente.
A tratativa de criação de códigos de conduta voltados ao uso de IA nos colégios, ainda está em processo em muitas escolas e por isso não consegue ajudar os docentes no combate ao uso da IA. A professora de Língua Portuguesa da Rede Estadual de Ensino, Andreia Pedro explica: “Ainda não tem, eu acredito que está sendo desenvolvido esse documento, porque está sendo elaborado o Projeto de Pesquisa Pedagógico (PPP) da escola, onde constam essas normativas. Então acredito que ainda está em construção”.
Enquanto as políticas para o assunto não são aplicadas nas redes de ensino, cada professor precisa inventar suas próprias soluções. Andreia, foi radical na adaptação e deixou de aplicar as atividades para casa. "Em tempo de IA, isso está cortado da minha realidade, da minha prática em sala de aula”.
A solidão dos professores fica ainda mais evidente quando se olha para o papel das famílias. A educadora Sandra Teresa aponta que boa parte do problema começa em casa, quando os responsáveis entregam celulares, sem dimensionar as consequências. Para ela, a escola não consegue sozinha reverter o que foi construído ao longo de anos de uso irrestrito e já se tornou um vício. "É um caminho sem volta, uma geração que não consegue mais viver sem. Por isso estamos sozinhos. Eu não peço mais para guardarem o celular, porque já virou um vício" , desabafa.
Para Joyce Louback, professora da Faculdade de Educação na Universidade Federal no Rio de Janeiro e especialista em Inteligência Artificial, a família muitas vezes não tem acesso a essa discussão ou não acha ela importante, então, primeiramente se faz necessário entender que o sistema educacional brasileiro é muito amplo, complexo e desigual dentro de contextos sociais, e isso é refletido na apropriação dessas ferramentas nas diferentes redes de ensino.
"Ainda é um processo de adaptação” , avalia.
A especialista julga o momento desafiador porque não dá para ignorar a existência dessas ferramentas e fingir que elas não estão sendo usadas. Ela explica que recentemente foram lançadas as primeiras normativas do Conselho Nacional de Educação, órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), propondo uma regulação dessas IAs. “Não estamos completamente preparados, mas acho que a escola é um campo importante para a discussão do uso dessas ferramentas e do lugar do professor dentro desse cenário” , completa.
O documento com mais de 80 páginas disponibiliza referências teóricas e regulatórias sobre a Inteligência Artificial na educação, com o objetivo de auxiliar os gestores a entenderem as principais definições nacionais e internacionais sobre o tema e reflexões sobre as adaptações curriculares que as redes de ensino devem efetuar. São estabelecidas diretrizes que permitem criar intencionalidade pedagógica no ensino sobre IA. A orientação geral é de que os marcos curriculares já existentes (BNCC e a Educação Digital e Midiática) sejam a base do ensino sobre IA.
A professora frisa a necessidade de um esforço geral para que nos próximos anos uma regulamentação geral seja acessível para os professores, que a relação entre a escola e a família se fortaleça perante esse fenômeno. “No momento estamos correndo contra um problema que está lá na frente e é como trocar o pneu com um carro em movimento”, finaliza.
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