Misoginia na era digital
Como a exposição a conteúdos misóginos influenciam no desenvolvimento de crianças e adolescentes.
A internet e as redes sociais se tornaram um dos principais espaços de socialização para crianças e adolescentes. Entre vídeos curtos, memes e conteúdos de humor, discursos machistas e violentos contra mulheres também passaram a circular de forma cada vez mais frequente nas plataformas digitais. Muitas dessas mensagens aparecem de maneira sutil, misturadas ao entretenimento, o que dificulta a identificação do problema até mesmo por adultos.
O debate ganhou força em 2026 com a entrada em vigor do chamado ECA Digital, conjunto de medidas voltadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente online. A legislação surge em um contexto de crescimento dos discursos de ódio nas plataformas e de discussões sobre a responsabilidade das empresas de tecnologia na circulação de conteúdos nocivos.
A misoginia pode ser definida como o conjunto de práticas, discursos e comportamentos que expressam desprezo, discriminação, hostilidade ou violência contra mulheres e meninas. Embora seja um fenômeno histórico, a forma como as redes sociais funcionam ampliou o alcance desse tipo de discurso, principalmente entre o público mais jovem.
Nas redes sociais, muitos desses discursos estão ligados à chamada “machosfera”, termo usado para definir todo um ecossistema de comunidades virtuais, grupos e influenciadores digitais que compartilham discursos antifeministas e misóginos na internet. Dentro desses espaços estão, por exemplo, comunidades redpill e fóruns antifeministas, onde circulam discursos que atacam mulheres e disseminam visões distorcidas sobre relacionamentos e masculinidade. Segundo levantamento divulgado pela SaferNet Brasil em fevereiro de 2026, as denúncias de misoginia online passaram de 2.686 casos, em 2024, para 8.728 em 2025, um aumento de 224,9%.
Para a pesquisadora argentina Melina Gaona, especialista em cibercultura e movimentos masculinistas digitais, a circulação da misoginia nas redes sociais passou por uma transformação nos últimos anos. Conteúdos que antes estavam restritos a fóruns e comunidades específicas passaram a alcançar públicos muito mais amplos devido ao funcionamento das plataformas digitais.
“O que aconteceu foi que espaços mais fechados e de nicho foram sendo amplificados pelas lógicas das redes sociais comerciais. Isso fez com que discursos que antes circulavam em fóruns específicos passassem a chegar a muito mais pessoas do que chegavam no início dos anos 2000”, afirma.
Segundo Gaona, esse processo ajuda a explicar por que adolescentes e jovens têm hoje contato com discursos que antes circulavam em espaços muito mais restritos da internet. Para a pesquisadora, os algoritmos das plataformas tendem a favorecer conteúdos capazes de gerar engajamento e reações emocionais intensas, ampliando a circulação de discursos extremistas e misóginos.
Esse impacto não fica restrito ao ambiente virtual. O relatório “Technology on Her Terms”, divulgado pela UNESCO em 2024, aponta que conteúdos impulsionados por algoritmos podem expor meninas a estereótipos de gênero, cyberbullying, padrões corporais irreais e outros materiais capazes de afetar sua autoestima, saúde mental e desempenho escolar. O documento cita, por exemplo, uma pesquisa da Meta em que 32% das adolescentes entrevistadas afirmaram que o Instagram as fazia sentir pior em relação ao próprio corpo quando já estavam insatisfeitas com sua aparência.
Para a psicóloga Raysa Lima, a adolescência é uma fase marcada pela busca por pertencimento e pela construção da identidade, o que pode tornar jovens mais vulneráveis a discursos extremistas encontrados nas redes sociais. "É o momento de busca por ideologias, reconhecimento e identidade. Se a angústia daquele adolescente está relacionada ao fato de ele estar começando a namorar e se sentir inseguro consigo mesmo, e ele encontra um lugar que lhe dá segurança e o empodera por meio de um discurso misógino, é ali que ele vai ficar", explica.
Na avaliação da psicóloga, comunidades digitais podem oferecer aos adolescentes explicações simples para inseguranças e dificuldades típicas dessa fase da vida. Quando esses espaços atribuem a mulheres ou ao feminismo a responsabilidade por problemas pessoais e afetivos, essas narrativas podem influenciar a forma como jovens percebem os relacionamentos e se relacionam com outras pessoas.
A própria pesquisadora Melina Gaona destaca que muitos desses conteúdos chegam aos adolescentes por meio de formatos aparentemente inofensivos. "As formas de violência digital combinam humor, ironia, memes e imagens manipuladas. Isso faz com que discursos violentos sejam apresentados de forma banalizada e facilmente compartilhável", observa.
Os reflexos desse fenômeno também têm sido observados no ambiente escolar. Em um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da University of York, no Reino Unido, 44% dos professores do ensino secundário relataram situações em que meninas foram alvo de comentários ou comportamentos misóginos, enquanto 38% afirmaram ter presenciado estudantes do sexo masculino reproduzindo comentários misóginos. A pesquisa aponta que a circulação desses conteúdos pode afetar a participação feminina em espaços educacionais e influenciar a forma como jovens se relacionam com colegas e professoras, contribuindo para a normalização de comportamentos discriminatórios.
Embora o debate sobre regulação das plataformas tenha ganhado destaque nos últimos anos, tanto Raysa Lima quanto Melina Gaona defendem que o enfrentamento da misoginia digital envolve mais do que medidas de controle e responsabilização das empresas. Para elas, a discussão também passa pela educação básica e pela formação crítica de crianças e adolescentes para o uso das tecnologias.
"Temos iniciativas que apenas dizem que a tecnologia faz mal ou que os jovens deveriam usar menos as redes. Mas não existe, de forma estruturada, uma educação voltada para compreender criticamente como essas plataformas funcionam e como influenciam nossa visão de mundo", afirma Gaona.
Nesse cenário, o ECA Digital entrou em vigor em 2026 com o objetivo de fortalecer mecanismos de proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual. A legislação prevê medidas relacionadas à segurança online, deveres das plataformas digitais, classificação indicativa, transparência algorítmica e combate à circulação de conteúdos prejudiciais para menores.
Mas, enquanto as discussões sobre a aplicação dessas medidas avançam, o crescimento das denúncias de misoginia online e a popularização de comunidades associadas à machosfera mostram que o debate está longe de se encerrar. Para gerações que não cresceram conectadas, entender como esses discursos circulam e chegam aos jovens que nasceram imersos nesse ambiente digital se tornou um desafio fundamental para o enfrentamento do problema.
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