Os Gargalos da UFBA
Falhas na transição do SIGAA e problemas estruturais expõem desafios que estudantes, técnicos e professores convivem na maior Universidade da Bahia.
A Universidade Federal da Bahia (UFBA) enfrenta dificuldades na transição de suas plataformas digitais e na manutenção da infraestrutura física dos campi em Salvador. No ambiente virtual, a modernização dos processos institucionais opera com restrições desde 2016, quando a universidade adquiriu o Sistema Integrado de Gestão das Atividades Acadêmicas(SIGAA) como parte do projeto UFBASIM. A implementação da ferramenta ocorreu dez anos após a aquisição, período marcado por interrupções decorrentes da pandemia de COVID-19 e de uma greve de docentes e técnicos-administrativos com duração de dois meses.
Pressionados pela Portaria MEC Nº70, do ano de 2025, que exige a distribuição de currículos de forma digital, a UFBA precisou colocar em prática o projeto UFBASIM. Substituindo o Sistema de Administração Acadêmica (SIAC), antigo sistema da UFBA que não previa a emissão de currículos digitais, o SIGAA - que já era utilizado na pós-graduação desde 2018 - chegava à graduação com promessas de simplificação de processos e o sincronismo com as rotinas acadêmicas. Em partes, essas expectativas foram verdadeiras. O processo de matrícula, que antes era presencial, passou a ser online. Porém, a realidade da integração do SIGAA gerou mais problemas do que solução para a UFBA.
A dificuldade de matrícula foi o maior problema que os alunos relataram em 2025.2 e 2026.1, que gerou dois semestres atípicos seguidos. A mudança do SIAC para o SIGAA gerou uma obrigatoriedade no uso da resolução nº 02 de 2017 do Conselho Acadêmico de Ensino (CAE). Essa resolução define que os alunos que estão semestralizados têm preferência na escolha de componentes curriculares, prejudicando os alunos que precisam trancar as disciplinas por dificuldades em acompanhar, como as que necessitam estudar e trabalhar.
Um dos principais causadores dessa “bola de neve” foi a exoneração da professora Karina Menezes, que até então era Superintendente de Administração Acadêmica. Karina foi exonerada no dia 13 de outubro de 2025 pelo atual reitor Paulo Miguez. “Eu senti uma grande injustiça, porque a exoneração aconteceu sem lastro técnico. A forma como ela aconteceu, sem uma chance de transição, foi injusta até mesmo com a UFBA”, desabafou Karina.
A exoneração da Superintendente gerou um gargalo muito grande, pois era ela quem organizava, desde o início de 2024, a implementação do SIGAA na graduação. “Eu recebi a notícia da minha exoneração na segunda-feira e já tinha alguém para colocar no meu lugar. Uma pessoa que não dominava os conhecimentos em relação à SUPAC e o SIGAA.”, afirmou Karina. Além dessa mudança repentina, a professora do Instituto de Educação relatou que a UFBA não a procurou depois da sua exoneração para coletar as informações do processo de implementação que estavam com ela.
O processo de matrícula de 2025.2 ainda contou com uma dificuldade de comunicação entre os setores da UFBA. A Professora Karina relata que havia muitos processos de atualização curricular presa no CAE, mas a responsabilidade recaia para a SUPAC. “ Os servidores da SUPAC escreveram uma carta para mim relatando que estavam precisando de apoio. Que o CAE estava com processos de atualização de matrículas presos e que a SUPAC não poderia fazer esse papel. Sem esse processo, nós não podemos registrar os componentes curriculares e os alunos não conseguem integralizar”, relatou Karina.
Os efeitos desses gargalos não ficaram restritos aos setores administrativos da universidade. Durante os semestres 2025.2 e 2026.1, os problemas passaram a impactar diretamente os estudantes, principalmente durante o processo de matrícula.
Segundo o ex-secretário-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Lucas Romeu, uma das principais reclamações estava relacionada à aplicação da semestralidade prevista na Resolução nº 02/2017 do Conselho Acadêmico de Ensino (CAE). Embora a norma já existisse, ela não era aplicada pelo SIAC. Com a chegada do SIGAA, o critério passou a influenciar a prioridade na matrícula dos componentes curriculares. Na avaliação do movimento estudantil, a mudança afetou principalmente estudantes que precisaram interromper disciplinas por motivos de trabalho, saúde ou dificuldades financeiras.
Além das dificuldades na matrícula, o DCE recebeu relatos envolvendo pré-requisitos, integralização curricular, carga horária extensionista e inconsistências em registros acadêmicos. A entidade acompanhou mais de 150 casos junto à SUPAC e aos colegiados de curso, buscando soluções para estudantes prejudicados pela transição para o novo sistema. Segundo Lucas, parte dos problemas ainda permanece e afeta principalmente alunos que não seguem o fluxo considerado regular da graduação.
Enquanto estudantes cobram mudanças, setores da universidade defendem que a implantação do SIGAA ainda está em processo de aperfeiçoamento. Para a superintendente de Educação a Distância da UFBA, Márcia Rangel, a utilização prática do sistema revelou situações que não haviam aparecido durante a fase de planejamento, exigindo atualizações nos materiais de orientação e novas estratégias de formação para a comunidade universitária.
Na avaliação da gestora, a experiência dos últimos semestres demonstrou que a transformação digital não depende apenas da tecnologia, mas também de planejamento, comunicação e acompanhamento permanente dos impactos gerados pelas mudanças. Passados dois semestres marcados por dificuldades e adaptações, a universidade ainda busca consolidar o sistema que foi adquirido há uma década com a promessa de modernizar a gestão acadêmica da UFBA.
As condições da infraestrutura física nos campi da UFBA constam em relatórios de execução financeira da Pró-Reitoria de Administração (PROAD). Os documentos indicam uma redução de R$13 milhões nas verbas de custeio para manutenção preventiva, diminuição de repasses que, segundo manifesto publicado em maio de 2026 pelo DCE no Instagram, impede a execução de reformas estruturais e se relaciona com os problemas observados nos prédios.
Os registros climatológicos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que o bairro de Ondina acumulou volumes de chuva acima da média histórica nos meses de abril e maio de 2026. No final de abril, o portal G1 Bahia divulgou imagens do acúmulo de água no vão externo da Biblioteca Central Reitor Macedo Costa, local onde patos transitavam pelas vias submersas. Rachel Nascimento, estudante da Faculdade de Comunicação, no campus de Ondina, relata que se atrasou diversas vezes devido ao alagamento. “Fica complicado para os alunos e para qualquer pessoa que precisa se locomover pela universidade. Tanto os caminhos de terra quanto as calçadas acabam alagando, e a gente tem que ir pulando de um lugar seco para outro para não molhar o pé”, explicou a estudante.
O problema infraestrutural durante o período de chuvas invade o interior dos Pavilhões de Aulas: no dia 7 de maio de 2026, um compilado de fotos publicado pelo Movimento Correnteza expôs o desabamento de placas de gesso dos tetos e infiltrações na rede elétrica, além da interrupção temporária no fornecimento de água em banheiros e bebedouros.
A justificativa técnica para as inundações consta em nota oficial publicada no portal da universidade no dia 24 de abril de 2026. No texto, a Reitoria e a Superintendência de Meio Ambiente e Infraestrutura (SUMAI) informam que o Campus de Ondina fica em uma cota altimétrica próxima ao nível do mar e atua como uma bacia de acumulação. De acordo com o documento da superintendência, quando o sistema de drenagem urbana do bairro satura devido ao volume pluvial e à maré alta, o fluxo recua para as calçadas da instituição. A SUMAI foi procurada para detalhar o cronograma de reparos definitivos, mas não enviou resposta até a publicação desta reportagem.
No Pavilhão de Aulas V (PAF V), laudos de segurança da SUMAI indicam recalque de fundação, falha estrutural que motivou a instalação de tapumes no entorno devido ao afundamento do solo. Apesar do isolamento parcial, as aulas dos Bacharelados Interdisciplinares (BIs) continuam no prédio, decisão contestada por representantes discentes que apontam falhas na vigilância das áreas interditadas.
Em situação semelhante, o prédio do Instituto de Ciência da Informação (ICI) completou 16 anos de paralisação nas obras em abril de 2026, de acordo com o Sistema Integrado de Monitoramento, Execução e Controle (Simec). A estrutura inacabada acumula água da chuva e resíduos, cenário associado aos alertas de focos do mosquito Aedes aegypti nos boletins epidemiológicos da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab).
No cotidiano das faculdades, o impacto das chuvas motivou uma circular da Reitoria que delegou aos docentes a autonomia para suspender aulas presenciais ou adiar exames. O DCE contestou a diretriz sob o argumento de que a falta de centralização nas decisões desconsidera os riscos de deslocamento para estudantes que residem em bairros periféricos sujeitos a deslizamentos.
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