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Projetos para a sociedade: Segurança na ciclovia

25/10/2026 Feito por Alanis Souza, Anderson José, Giovanna Biani e Uelton Fael Souza 0 visualizações

Alunos do IFBA de Camaçari apresentam projeto para ajudar ciclistas surdos.


O ronco dos motores dos carros, ônibus e caminhões entrelaçam entre si como uma guerra de sons, enquanto os pedestres esperam pelo momento em que a travessia até o outro lado é permitida. Assim é o trânsito, principal meio de circulação e que nas grandes cidades consegue ser um dos lugares mais caóticos e perigosos, exigindo total cuidado e atenção tanto dos motoristas, quanto dos pedestres.

Em 2024, o Brasil registrou pelo sexto ano consecutivo um aumento na mortalidade por acidentes de transportes com 38.253 óbitos, maior patamar desde 2019, passando de 15,8 para 18 mortes por 100 mil habitantes entre 2019 e 2024, crescimento de 14% no período. Os dados são do DATASUS-SIM disponíveis no Observatório da Saúde Pública. 

Há um grupo de civis que sofre ainda mais com a falta de segurança, a comunidade surda. A Bahia possui cerca de 720 mil pessoas com algum grau de deficiência auditiva, em que mais de 30 mil desses são completamente surdos, segundo dados do IBGE. Ao todo, o Brasil possui 10,7 milhões de pessoas surdas, desses, 2 milhões são totalmente surdos.

Pensando nisso, a professora de Língua Portuguesa Lanuza Lima e os estudantes Bianca Vasconcelos, Júlio Apolinário e Marcos Batista, do Instituto Federal da Bahia em Ciência, Tecnologia e Inovação (IFBA) de Camaçari, desenvolveram um projeto chamado Touch Bike, que tem como público-alvo a comunidade de ciclistas também deficientes auditivos. Com o objetivo de atender às necessidades desse público, o projeto permite mais autonomia, mobilidade e segurança no trânsito.

Júlio, Bianca, Lanuza e Marcos em competição na China  — Foto: Acervo Pessoal

Com base na neurociência e no conceito de que quando há perda de um sentido, o cérebro compensa com outro, que a equipe desenvolveu o dispositivo. "Essa sobrecarga passa a depender não apenas do sentido visual, mas também do tátil. Por isso, desenvolvemos uma manopla que ajuda essas pessoas a se locomoverem no trânsito", afirma Marcos.

Uma parte do dispositivo conta com um sensor para detectar buzinas, que funciona em conjunto com um sensor de proximidade. A inteligência artificial utilizada não identifica apenas sons de buzina, evitando a confusão entre os sons, ao correlacionar sua distância e sua natureza. "Se houver um carro nas proximidades, a inteligência artificial sabe que, mesmo que exista uma buzina do outro lado da rua, ela não vai disparar o alerta. O sensor de proximidade avisa a IA que o carro buzinando não está próximo”, explica o estudante Júlio. Para isso, é feito um treinamento que ensina o sistema a separar sons específicos de trânsito dos demais sons urbanos. 

Desde a ideia até o protótipo atual, o projeto passou por diferentes fases de desenvolvimento. A proposta surgiu em novembro de 2025, quando os estudantes apresentaram a ideia inicial. Em dezembro, o grupo iniciou a construção do projeto escrito, e a execução prática começou logo em janeiro.

A primeira etapa foi a pesquisa de campo para entender como a dificuldade de ciclistas com deficiência auditiva em perceber sons do trânsito era uma questão real. Nessa fase, o grupo conversou diretamente com pessoas surdas e com ciclistas para compreender a realidade desse público. A equipe trabalhou na construção do modelo de inteligência artificial, enquanto avançava também para a primeira simulação da manopla, o que resultou no primeiro protótipo funcional. Atualmente, o grupo está ajustando detalhes técnicos a partir dos testes realizados.

O contato com a comunidade surda não se limitou à fase inicial de pesquisa. De acordo com Marcos, o contato começou dentro do próprio campus, com estudantes surdos do IFBA, e em seguida, com ciclistas surdos de outras localidades. Na pesquisa de campo o grupo se aproximou da comunidade surda por meio de grupos de ciclismo no WhatsApp e depois estiveram em diálogo durante todo o processo de desenvolvimento. 

Ao longo da pesquisa, o grupo recolheu avaliações, um dos mais marcantes, segundo Marcos, veio de um estudante surdo do próprio campus. Na ocasião, a equipe apresentou a ele um protótipo ainda inicial, uma manopla que apenas vibrava.

Outros relatos vieram de integrantes de grupos de ciclismo que pedalam ao lado de um ciclista surdo, para eles, a experiência exige atenção pois é preciso se comunicar por gestos e observar constantemente o colega de trajeto e o Touch Bike garantia mais segurança.


Do IFBA para as competições


O Touch Bike foi selecionado para representar a América Latina e o Brasil na fase global de uma competição promovida pela empresa chinesa Huawei. A ICT Competition tem como objetivo identificar novos talentos jovens ligados à tecnologia. A disputa é dividida em quatro categorias, chamadas de trilhas de inovação, computação, cloud e network. O Touch Bike concorre na trilha de inovação, voltada para ideias que unam inteligência artificial a soluções tecnológicas.

Júlio, Bianca e Marcos com o projeto Touch Bike  — Foto: Acervo Pessoal

A professora Lanuza relata que o principal apoio é do IFBA, pois usam os laboratórios de impressão em 3D para o protótipo, além do instituto contar com professores de diversas áreas, que também prestam apoio. Com relação à comunidade externa, a prefeitura de Camaçari reconheceu o projeto com uma menção honrosa, o que rendeu ao grupo homenagens e abertura para uma futura colaboração.

Apesar disso, de acordo com ela, a maior parte dos custos são arcados pelos próprios integrantes e a Huawei como promotora da competição fornece uma quantia em dinheiro. “Tem muito  esforço individual, todo mundo aqui colaborou para comprar alguma coisa desse projeto”. 

Bruno Ernsen, professor adjunto de Libras da UFBA, também surdo, e a professora de Libras, Claudiane Soares, explicam que ainda são poucas as tecnologias assistivas pensadas para pessoas surdas, e quanto às que existem, são recursos caros.

“O surdo não tem o direito ao desconto do IPVA, por exemplo. Seria importante que tivesse esse desconto, porque adquirir essas tecnologias também é um recurso caro para pessoas surdas”, explica.

O desconto se refere a uma isenção aplicada no país através de leis estaduais na cobrança do IPVA dos veículos para PCDs. Na Bahia esse benefício é fundamentado pela Lei Estadual nº 6.348/1991, com atualização mais recente estabelecida pelo Decreto Estadual nº 14.528/2013. Esse serviço é concedido para pessoas com deficiência visual, física, mental severa ou profunda, síndrome de Down e transtorno do espectro autista (TEA), não incluindo pessoas surdas. 

Para Bruno, projetos como o Touch Bike são ótimos, mas a visão é um dos sentidos mais importantes para a pessoa surda. “O surdo é um sujeito visual, então se tivesse um painel com imagem seria ainda melhor”. 

Bruno acredita que se existisse um aparelho em automóveis que pudessem identificar os diferentes tipos de som, seria muito eficaz. Quando uma ambulância se aproxima, por exemplo, às vezes a sirene está piscando, mas não por ouvir o barulho do sinalizador, não consegue identificar se aquele carro precisa ultrapassar com urgência ou não. 


Pouca acessibilidade


O Brasil possui a Lei nº 10.098/2000 que busca garantir a promoção da acessibilidade para PCDs, mediante a eliminação dos obstáculos nas vias e espaços públicos, e a Lei nº 13.146/15, também denominada de Estatuto da Pessoa com Deficiência, que busca, de forma mais ampla, garantir a acessibilidade e os direitos das pessoas com deficiência. 

A Língua Brasileira de Sinais, Libras, ainda é pouco usada pelas pessoas. Segundo o portal ICOM, socialtech premiada pela ONU, apesar de não haver um levantamento oficial recente de pessoas fluentes em Libras no país, estimativas apontam que cerca de 1 milhão de pessoas tenham conhecimento da língua — incluindo surdos, intérpretes, professores e familiares — representando cerca de apenas 0,5% da população brasileira. 

No Brasil, além da Lei de Libras (10.436/2002), que obriga todas as instituições e empresas de serviços públicos de assistência à saúde garantir atendimento adequado aos portadores de deficiência auditiva, há também a Lei Brasileira de Inclusão (13.146/2015), que assegura o direito à comunicação em Libras e que todas as empresas prestadoras de serviços públicos devem fomentar atendimento acessível para pessoas surdas. 

Ainda assim, segundo Bruno, ele já passou por situações desconfortáveis envolvendo policiais de trânsito que o abordaram, mas não sabiam a língua de sinais. “Eles pediam documentos, às vezes o teste do bafômetro, mas não sabiam a língua de sinais para abordar uma pessoa surda”. 

Claudiane citou outro caso de uma pessoa surda abordada por policiais, que por não saberem libras, tentaram se comunicar fazendo mímica, a pessoa surda sem entender desligou o carro

e o policial tentou explicar que não era para desligar, mas ele [pessoa surda] não entendeu, porque o policial estava usando mímica e não a língua de sinais.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, que entrevistou 800 pessoas portadoras de deficiência visual, auditiva, motora, intelectual ou múltipla, 61% dos entrevistados já se sentiram tristes ou deprimidos após terem problemas com acessibilidade durante seus trajetos e 79% já chegaram atrasados ou até mesmo perderam algum tipo de compromisso devido à falta de acessibilidade.

Em projetos como esse elaborado pelos estudantes, Claudiane acredita que a divulgação é essencial para incentivar outros estudantes e pesquisadores a se aprofundarem nos estudos sobre as necessidades da comunidade surda.

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